20 de dezembro de 2009

Inconsistente.

Primeiramente quero me desculpar pela ausência. Sei que não devo explicações, mas a culpa não é só minha e pouco importa de quem ou de que mais ela seja. Não quero me sentir em débito, apenas isso.

Tem muita coisa acontecendo aqui dentro e eu não sei bem se estou lidando com tudo da melhor maneira possível. É uma confusão muito grande, tanto pra mim quanto pra quem mais estiver disposto a observar. São palavras e sentimentos ricocheteando, correndo, urrando, cantando, dançando, florescendo, murmurando, dilacerando, calando, sangrando, curando, morrendo e matando dentro de mim. Muita coisa pra descrever, definir, ainda mais se for pra fazê-lo com coerência, que já não faz parte de mim há tempos.
Não sei mais me expor sem ser muito minha e, ao mesmo tempo, muito dele. Não sei mais ser serena, nem doce, nem bonita, nem poética. Acho que não sei mais escrever pra que leiam, só sei escrever pra guardar, pra trancar a sete chaves em minha alma o que tirei de lá e transformei em texto. Onde já se viu tanto sentimento fluindo por um teclado? Onde já se viu tanto carinho entalado, tanto lirismo enlatado? Pois se vê em mim. E eu não sei mais como enxergar nada disso... Tudo parece muito turvo, muito escuro.
Se não for incômodo pra ninguém, fecharei meus olhos por um tempo. É hora de hibernar, é hora de ninar esse coração que bate em função de um só nome, de um só sentimento. Prometo retornar assim que estiver curada disso que nem sei diagnosticar. Prometo, está bem?

16 de dezembro de 2009

Beije-me.

Foi um dia glorioso de primavera, você se lembra? Nós éramos dois jovens desconhecidos sentados à beira da piscina, de lados opostos, na casa de um amigo em comum. O sol estava morno e uma brisa leve soprava, fazendo seus cabelos irem para lá e para cá, marolando como a água onde mergulhávamos as pernas até a metade. E toda vez que isso acontecia, você fechava os olhos e sorria. Era magnífico. Depois levantava um pouco a cabeça na minha direção e eu desviava o olhar, tentando ser discreto – o que era inútil àquela altura.
Conforme foi entardecendo, eu saí para buscar algo para beber e quando voltei você estava sentada onde antes estava eu. Titubeei. Pensei mil vezes no que fazer. Pensei em dar meia volta e entrar na casa novamente, pensei em sentar em outro lugar, pensei em continuar parado em pé te olhando. Por fim, sentei-me ao teu lado, como quem não quer nada, e tive receio em pôr as pernas na água novamente, pois elas tremiam tanto que poderiam provocar ondas violentas na piscina. Você virou em minha direção lentamente e eu disfarcei o nervosismo mordendo a beirada do copo, querendo que você não falasse nada e ao mesmo tempo falasse tudo. Meu nome foi o que você perguntou primeiro e foi um bom começo. Não sei se foi mais bonito você repetindo meu nome com aquele ar de quem avalia letra por letra ou se foi você pronunciando o seu próprio como quem faz uma prece: imensamente delicada.
Conversamos por horas. Todos foram embora, mas permanecemos lá, falando sobre os astros, rindo de piadas mal contadas e estabelecendo teorias sobre uma vida que estávamos loucos para conhecer por completo. Eu, que nunca entendera aquela expressão ‘borboletas no estômago’ passei não só a entender, mas a saber como era quando elas faziam uma verdadeira festa, dançando qualquer ritmo caribenho que me deixava quente por dentro. E você... Você era um verdadeiro deleite aos meus olhos, é só o que posso dizer, pois seria patético da minha parte tentar descrever alguém que beira a perfeição. Além disso, apenas mais uma coisa posso afirmar: a cada vez que nossos olhares se cruzavam, eu podia ler em seus olhos o pedido mais silencioso e mais gritante que alguém me fizera. ‘Beije-me’, você dizia com aqueles olhos cor de céu. ‘Beije-me’, e eu fingia não entender.
O crepúsculo passou e nossos olhos se encontravam cada vez com mais freqüência. Colocaram música pra tocar no jardim e eu te chamei pra dançar, desacreditando que você diria sim para um pedido tão tosco, mas você aceitou. A lua estava brilhando, parecia morna com o sol de antes, e nossos passos eram lentos. Seus cabelos cheiravam a jasmim, seu corpo se mexia com suavidade e você fez questão de me encarar no meio da música. E eu te beijei. Achei que estivesse flutuando, passeando em algum canto do universo e pude jurar que a Via Láctea tinha gosto de caramelo. Você me sorriu depois, dizendo ‘Você tem luz, Felipe. Você é leve, é sereno e parece iluminar as coisas ao seu redor. Você é como um vaga-lume e eu gosto disso’. Eu nunca entendi o que você quis dizer, mas também nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer de nenhum detalhe dessa noite, nem de como você cantarolou antes de dormir a música que dançamos. Nunca vou esquecer, Marcela.

''Kiss me
beneath the milky twilight.
Lead me out on the moonlit floor.
Lift your open hand,
strike up the band and
make the fireflies dance.
Silver moon sparkling,
so, kiss me.''
Sixpence None The Richer


Mais beijos: Natália, Pâmela, Fernanda, Maria Fernanda, Charlie, Du, Raquel, Tiago, Andrey, Luciana, Nathália, Alan.
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14 de dezembro de 2009

Pra não dizer que eu não falei das flores...

As flores que você me deu apodreceram semana passada e o odor delas está infestando toda a casa. Eu simplesmente me recuso a jogá-las fora. Lá está o vaso com a água pela metade, como se isso ainda mantivesse as flores vivas. Ontem mesmo eu troquei a água antes que ela também apodrecesse. Acho que esperava que as flores revivessem depois disso. Acho que pensava que elas seriam coloridas e perfumadas pra sempre. Acho que acreditava que nosso amor seria como as flores. Acho que me enganei...
As flores que você me deu apodreceram semana passada e o odor delas está infestando toda a casa. Eu simplesmente me recuso a jogá-las fora. Cada pétala que se desprende é um pedaço do meu passado que murcha diante dos meus olhos. Cada linha negra que surge nos caules é um corte profundo sobre a minha pele. Cada grão de pólen inútil é mais um grão de poeira se acumulando sobre as caixas onde guardo nossas poucas lembranças. Cada flor morta é meu próprio reflexo...
As flores que você me deu apodreceram semana passada e o odor delas está infestando toda a casa. Eu simplesmente me recuso a jogá-las fora. O nosso amor apodreceu semana passada e o odor dele está infestando minha alma. Eu simplesmente me recuso a jogá-lo fora...

''The flowers you gave me are rotting
and still I refuse to throw them away.
Some of the bulbs never opened quite fully,
they might so I'm waiting and staying awake.
Things I have loved I'm allowed to keep,
I'll never know if I go to sleep.''
Regina Spektor

11 de dezembro de 2009

Amélia, a mulher de mentira.

Levantava junto com o sol. Todo dia, mais ou menos às cinco da manhã, lá estava ela a coar café. Punha a mesa enquanto o marido tomava banho e se arrumava pra trabalhar. Assim que ele saía do quarto, tipicamente de terno e gravata, Amélia corria pra recolher a toalha molhada, arrumar a cama e tomar seu próprio banho. Quando saía do banheiro, o marido já tinha ido pro escritório de advocacia. Amélia então se arrumava, tomava seu café rapidamente e sozinha, tirava a mesa, lavava a louça e ia trabalhar. Profissão? Assistente de telemarketing.
Pode-se dizer que Amélia só conversava no ambiente de trabalho e mesmo assim era muito pouco. Falava mais ao telefone, enquanto trabalhava de fato, do que com os colegas dentro da empresa. Às vezes discutia alguma receita com uma moça mais jovem ou então um ponto de crochê com uma senhora mais velha. Ninguém sabia que tinha 47 anos - sendo casada há 25 - nem que morava sozinha num apartamento qualquer de bairro classe média com o marido advogado de 50 anos e muito menos que não tivera filhos porque era estéril. Pra todos, ela era apenas mais uma dona de casa que arrumara um empreguinho qualquer pra completar a renda familiar - o que não deixava de ser um pouco verdade. No fim do expediente, Amélia nem fazia questão de se despedir. Simplesmente pegava a bolsa de mão e, às seis e meia da tarde, se punha a esperar o ônibus lotado que a levaria de volta pra casa. Em dia de pagamento, passava no banco antes pra sacar o salário e poder entregar metade na mão do marido.
Chegando em casa, Amélia preparava a janta enquanto lavava a roupa e dava um jeitinho de limpar a cozinha. Só jantava depois que o marido chegava. Ambos sentavam-se à mesa, em frente à televisão, e comiam em silêncio ouvindo o jornal da noite. Após o jantar, Amélia recolhia os pratos e lavava a louça ao que o marido deitava no sofá pra ver qualquer programa inútil até de madrugada. Como era de costume, Amélia ia pro quarto ver a novela na televisão pequena e mal colocada sobre a cômoda. Teoricamente, claro. Atrás da porta trancada do quarto, Amélia tirava de dentro da máquina de costura uma garrafa de conhaque pela metade e um maço de cigarros. Bebia dois ou três goles diretamente do gargalo mesmo enquanto tragava ao menos um cigarro na beirada da janela pra não deixar rastros de fumaça dentro do quarto. Quando recebia o salário, guardava a metade que tinha lhe sobrado dentro de uma suposta caixinha de alfinetes que também ficava escondida dentro da máquina de costura. Finalizado seu cigarro, Amélia recolocava seus bens mais preciosos dentro da máquina de costura, escovava os dentes, destrancava a porta do quarto, se ajoelhava pra rezar e ia dormir. Ao colocar a cabeça no travesseiro, costumava pensar em como seria o dia seguinte, desejando inutilmente que algo de diferente acontecesse, mas sabia que nada mudaria até o dia em que tivesse dinheiro suficiente na caixinha de alfinetes e conhaque suficiente correndo pelas veias pra largar aquela rotina medíocre e sair pelo mundo com o objetivo de saciar toda a sua sede de viver. Se não fosse pelas preces noturnas, pelo conhaque e pelo cigarro, Amélia não teria esperanças de ser feliz e de se sentir mulher de verdade novamente.

Toda mulher é de verdade até escolher viver por uma mentira.

10 de dezembro de 2009

Eu por mim - I.

Eu sou a ingrata. Porque parece que nada é o suficiente, nunca. Eu sou a exigente e a reclamona também. E isso me faz querer sempre mais, me faz parar de agradecer pelo que já tenho, me faz esquecer do quão difícil é conquistar as coisas, me faz recusar tudo que é fácil demais, me faz cobrar dos outros o que nem eu mesma posso oferecer. Como uma criança que pede um pirulito e se decepciona tanto a ponto de fazer escândalo, se debater e resmungar quando o recebe e constata que ele não é grande do jeito que imaginara, que não é tão doce quanto esperava ou que não tem aquele chiclete minúsculo no meio que não tem a mínima importância pra maioria, mas que pode fazer toda a diferença.
Eu sou aquela que raramente vai se contentar com o que tem e que, por isso mesmo, talvez não mereça nem metade do que possui e menos que um décimo do que deseja. Eu sou aquela quer quer mudar isso. Pra melhor. E que assim seja.
 

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