Foi um dia glorioso de primavera, você se lembra? Nós éramos dois jovens desconhecidos sentados à beira da piscina, de lados opostos, na casa de um amigo em comum. O sol estava morno e uma brisa leve soprava, fazendo seus cabelos irem para lá e para cá, marolando como a água onde mergulhávamos as pernas até a metade. E toda vez que isso acontecia, você fechava os olhos e sorria. Era magnífico. Depois levantava um pouco a cabeça na minha direção e eu desviava o olhar, tentando ser discreto – o que era inútil àquela altura.
Conforme foi entardecendo, eu saí para buscar algo para beber e quando voltei você estava sentada onde antes estava eu. Titubeei. Pensei mil vezes no que fazer. Pensei em dar meia volta e entrar na casa novamente, pensei em sentar em outro lugar, pensei em continuar parado em pé te olhando. Por fim, sentei-me ao teu lado, como quem não quer nada, e tive receio em pôr as pernas na água novamente, pois elas tremiam tanto que poderiam provocar ondas violentas na piscina. Você virou em minha direção lentamente e eu disfarcei o nervosismo mordendo a beirada do copo, querendo que você não falasse nada e ao mesmo tempo falasse tudo. Meu nome foi o que você perguntou primeiro e foi um bom começo. Não sei se foi mais bonito você repetindo meu nome com aquele ar de quem avalia letra por letra ou se foi você pronunciando o seu próprio como quem faz uma prece: imensamente delicada.
Conversamos por horas. Todos foram embora, mas permanecemos lá, falando sobre os astros, rindo de piadas mal contadas e estabelecendo teorias sobre uma vida que estávamos loucos para conhecer por completo. Eu, que nunca entendera aquela expressão ‘borboletas no estômago’ passei não só a entender, mas a saber como era quando elas faziam uma verdadeira festa, dançando qualquer ritmo caribenho que me deixava quente por dentro. E você... Você era um verdadeiro deleite aos meus olhos, é só o que posso dizer, pois seria patético da minha parte tentar descrever alguém que beira a perfeição. Além disso, apenas mais uma coisa posso afirmar: a cada vez que nossos olhares se cruzavam, eu podia ler em seus olhos o pedido mais silencioso e mais gritante que alguém me fizera. ‘Beije-me’, você dizia com aqueles olhos cor de céu. ‘Beije-me’, e eu fingia não entender.
O crepúsculo passou e nossos olhos se encontravam cada vez com mais freqüência. Colocaram música pra tocar no jardim e eu te chamei pra dançar, desacreditando que você diria sim para um pedido tão tosco, mas você aceitou. A lua estava brilhando, parecia morna com o sol de antes, e nossos passos eram lentos. Seus cabelos cheiravam a jasmim, seu corpo se mexia com suavidade e você fez questão de me encarar no meio da música. E eu te beijei. Achei que estivesse flutuando, passeando em algum canto do universo e pude jurar que a Via Láctea tinha gosto de caramelo. Você me sorriu depois, dizendo ‘Você tem luz, Felipe. Você é leve, é sereno e parece iluminar as coisas ao seu redor. Você é como um vaga-lume e eu gosto disso’. Eu nunca entendi o que você quis dizer, mas também nunca vou esquecer. Nunca vou esquecer de nenhum detalhe dessa noite, nem de como você cantarolou antes de dormir a música que dançamos. Nunca vou esquecer, Marcela.
''Kiss me
beneath the milky twilight.
Lead me out on the moonlit floor.
Lift your open hand,
strike up the band and
make the fireflies dance.
Silver moon sparkling,
so, kiss me.''
Sixpence None The Richer
Mais beijos: Natália, Pâmela, Fernanda, Maria Fernanda, Charlie, Du, Raquel, Tiago, Andrey, Luciana, Nathália, Alan.
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